terça-feira, dezembro 14, 2004

Condutores de Veículos Prioritários

Maioria dos condutores de ambulâncias sem formação

Problema preocupa a Liga dos Bombeiros Portugueses

A maioria dos tripulantes de ambulâncias em Portugal conduz em marcha de emergência sem formação específica e não foi alvo de qualquer triagem ou avaliação psicológica prévia.

Psicólogos e dirigentes de escolas de conduçãoavançada asseguram que há pessoas sem perfil para conduzir veículos de emergência médica. O problema preocupa a Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP).

Os condutores de ambulâncias, de uma forma geral, não são sujeitos a uma formação contínua para exercer essa função. Os cursos de aperfeiçoamento sãopontuais e estão praticamente dependentes da iniciativa e da capacidade financeira das corporações de bombeiros.Na Escola Nacional de Bombeiros, pouco mais de uma centena de alunos frequentouo curso de condução de ambulâncias, desde que foi criado, há cerca de cinco anos.Algumas corporações patrocinaram cursos através de empresas especializadas.

Foi ocaso das 12 acções de aperfeiçoamento promovidas em 1999 e 2000 em Sintra e na região do Algarve, em particular em Loulé, pelo Instituto Arade, escola de condução avançada, com sede em Faro. Foi também através do Instituto Arade que os enfermeiros que operam nos veículos de emergência médica do INEM(InstitutoNacional de Emergência Médica) receberam a formação inicial. Este ano, a reboque do Euro 2004, foi dada formação a outros 130 tripulantes do INEM pela ECP, uma escola privada do Porto.

Estas acções de formação, a que se acrescentam algumas iniciativas promovidas pela Prevenção Rodoviária Portuguesa, constituem a excepção no panorama da condução de veículos de emergência médica por profissionais (bombeiros e enfermeiros).

Avaliar o perfil dos condutores

A este problema soma-se a inexistência de qualquer triagem prévia à formação, uma condição considerada essencial para eliminar os que não têm capacidade para a função. "Há pessoas que não têm perfil para estar em assistência hospitalar e conduzir uma ambulância em marcha de emergência", diz Luís Escudeiro,director e formador do Instituto Arade.A posição é partilhada por Mário Horta, psicólogo na área da segurança rodoviária. "Há pessoas que não têm perfil para conduzir uma ambulância,tal como outras que não têm perfil para conduzir qualquer carro", afirma MárioHorta, lembrando que não conta apenas a personalidade em si, mas também as variações emocionais de uma pessoa ao longo do tempo.

O presidente da LBP, Duarte Caldeira, concorda que "é preciso avaliar se o condutor de veículo prioritário tem condições psicológicas para conduzir uma ambulância". "Esse perfil não está definido e temos sentido que há essa limitação", afirma Duarte Caldeira, também director da Escola Nacional deBombeiros. O responsável defende que "a formação deve ser complementada com testes psicotécnicos, o que não acontece neste momento".

Actualmente, à luz da lei, os bombeiros que conduzem ambulâncias não têm a obrigação de fazer qualquer formação específica. Os candidatos a condutores de ambulâncias apenas têm de ser vistos por um médico que avalia as aptidões físicas e psicológicas. Depois basta ter uma certidão médica do sub-delegado de saúde para ser averbada na carta de condução a categoria de "condutor deveículoprioritário".

O transporte de doentes em marcha de emergência exige alguns conhecimentos, sob pena de se prejudicar até as próprias vítimas. "Uma má condução afecta o estado do doente. A velocidade e a força centrífuga de acelerações aumentam as lesões e os problemas do foro cardíaco", explica Luís Escudeiro.

O efeito emocional da sirene

Por outro lado, sublinha Duarte Caldeira, "está provado que o toque de sirene tem influência no comportamento do bombeiro". Há estudos que mostram que qualquer condutor ao volante de um veículo com uma sirene aumenta o seu ritmo cardíaco e a velocidade.Conduzir depressa até ao hospital nem sempre é o melhor para o doente. "Uma vítima com hemorragia não pode viajar a uma velocidade muito elevada devido à força centrífuga causada ou até porque faz muita força a segurar-se à maca",exemplifica. Um doente do foro cardíaco "não pode ouvir uma sirene muito forte",segundo Luís Escudeiro.Mesmo os motoristas com muita experiência de estrada, sublinha Luís Escudeiro,fazem coisas erradas, a começar pela posição de conduzir. "Alguns pensam que vêmpara cá fazer uns truques, mas saem a dizer que estão mal sentados e não usam bem os pés", diz o formador.

Duarte Caldeira lembra um caso que aconteceu numacorporação de bombeiros, com um bombeiro que foi motorista profissional durante17 anos e sem registo de acidentes. Ao volante de um veículo de emergência envolveu-se em três sinistros num curto lapso de tempo.

Cursos podem custar 150 euros

Mesmo em relação à formação que é dada, o presidente da LBP refere que "os cursos não estão reconhecidos [oficialmente] por ninguém e as escolas exploram esta área de negócio". Duarte Caldeira lembra as dificuldades: os bombeiros voluntários que trabalham por conta de outrem só podem ser dispensados durante15 dias para formação e os cursos também não podem ser apenas nocturnos.Daí que defenda que a resolução do problema deva ser feita em conjunto com o INEM, que"não está isento de responsabilidades", e com a Direcção-Geral de Viação.

Às dificuldades em dar formação aos bombeiros, acresce a questão dos custos.Luís Lisboa, dirigente da ECP, reconhece que a escola foi contactada por algumas corporações de bombeiros do Porto, mas acabam por desistir porque não é muito barato. "Um curso pode custar 150 euros por pessoa, ao passo que em Espanha esse preço desce para 20 euros porque este tipo de formação é financiado peloEstado", refere Luís Lisboa.O responsável do Instituto Arade espera pela resposta de financiamento de um fundo europeu a um projecto de formação de condutores de veículos de emergência, sujeita a uma avaliação inicial, e com uma vertente teórica e prática. ParaLuísEscudeiro, este programa, que se destina a corporações de bombeiros noAlgarve,é um bom exemplo do que poderia ser aplicado a nível nacional.

enviado por Bruno Brito

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