domingo, outubro 17, 2004

O Psicólogo e o seu papel nos Bombeiros

Embora em casos de catástrofe, e no âmbito da Protecção Civil, sejam accionados Psicólogos para a Teatro de Operações, como aconteceu em Entre-os-Rios, os mesmos provêm quase em exclusivo de sistemas paralelos como Segurança Social ou das Unidades Hospitalares da região em causa. Têm como missão avaliar e prestar apoio SOS a familiares das vítimas, sobretudo.
Estamos longe do sistema francês, por exemplo, onde após uma catástrofe como a queda de um avião comercial, nenhum passageiro, incólume fisicamente, vai para casa sem passar por um internamento e avaliação num Hospital com equipa especializada e accionada na altura. Recebe, de imediato, acomodação, apoio financeiro no próprio dia e cartão com contactos 24 sobre 24 horas para pedir apoio estando aberta a hipótese de optar por reinternamento se assim o decidir.
Este tipo de trabalho é feito por equipes pluri-disciplinares onde o Psicólogo terá de ter formação específica em trauma e intervenção em situação de catástrofe. Estes elementos estão colocados nos seus postos de origem e são accionados pelo Gabinete de Crise e enquanto este o decidir.
Poderei resumir este primeiro aspecto da questão afirmando que o Psicólogo para intervir em situação de trauma, catástrofe ou SOS (um suicídio no cimo de um prédio, um pai toxicodependente que pegou fogo à casa para se matar a ele e à família que está com ele, por exemplo) tem de ter uma formação e experiência específicas para intervir sob esse mesmo ambiente de stress que tem efeito também nele próprio e que pode gerar uma frase, um gesto que transforma um salvamento num descalabro.
Há técnicas próprias de intervenção, que passam, sobretudo, por uma avaliação rapidíssima da situação e do perfil ou perfis dos actores em cena, por uma avaliação da sua própria abordagem e mudança rápida na mesma. Tudo isto se aprende já que é a mesma Psicologia mas a correr a uma velocidade diferente entre situações de efectivo risco de vida e morte.

Um segundo aspecto deste tema é o de que falando de Bombeiros temos então de ter Psicólogos-Bombeiros para intervir, além do Serviço, ao público em geral, no interior dos próprios corpos de Bombeiros ou grupos de Intervenção.
E chamo-lhes de propósito, Psicólogos-Bombeiros porque entendo que há que “vestir a pele”, acompanhar a rotina diária de uma corporação, estar com eles sentindo e intervindo, pôr as mãos na chama que muitas das vezes não é a do fogo florestal mas a do fogo das emoções, da impotência perante a vida que se vê apagar diante de nós, do fogo que é descobrir que nada é eterno e que o momento está ao virar de cada esquina, pronto a virar a página, da vida de cada um de nós.
Acredito que só assim se poderá ser Psicólogo de algum Bombeiro.
E ser Psicólogo nos Bombeiros começa por ser-se capaz de fazer uma avaliação psicotécnica na hora da admissão de cada novo candidato a Bombeiro e continua no acompanhamento necessário dos formandos durante o curso para Bombeiros de 3.ª classe.
Depois, ainda na Avaliação, o Psicólogo deve ter um papel importante na selecção dos quadros de Chefia. O melhor Técnico não é necessariamente o melhor Chefe.
Seque-se a Formação: aqui, na formação continua ou na formação para promoção, é importante introduzir cada vez mais técnicas e saberes na área do que é e de como se molda e evolui o comportamento humano, individual ou em grupo.
E, por fim, a Clínica: o Bombeiro é antes de mais um cidadão comum que arrasta consigo, para o quartel, problemas de dependências, traumas de infância, problemas conjugais, uma imensidão de factores externos que alteram o seu comportamento enquanto soldado da paz. Estes problemas têm de estar sob continua avaliação pelos Comandos e serem rapidamente direccionados para o campo de intervenção de um profissional credenciado já que o grupo ou os cidadãos carenciados podem vir a ressentir-se dessa baixa, momentânea ou não, de equilíbrio psico-afectivo ou mesmo químico.
Se se falou de intervenção SOS para as vítimas de sinistros certamente se terá de falar no valor do Psicólogos Clínico para intervir junto de grupos ou indivíduos Bombeiros que estiveram expostos a situações limites de stress e trauma, já para não falar dos Bombeiros que passam a vitimas, eles e os seus familiares, de sinistros que contra eles se viram (acidentes em viaturas de emergência, queimados, familiares e colegas de Bombeiros falecidos em acção).
É vasto o campo e o valor do Psicólogo-Bombeiro.
É necessário, cada vez mais, que os responsáveis nacionais e regionais perspectivem a criação de uma rede de especialistas, não necessariamente quadros a tempo inteiro de nenhum departamento estatal, mas Técnicos com vocação e com a prontidão voluntária de 24 sobre 24 horas, para acorrer à chamada onde e quando um Bombeiro precisar da sua intervenção ou da sua ajuda.
É no quadro do voluntariado que isto é possível, sem domingos, sem feriados, sem reivindicações laborais. Dar por dar, dar por bem.
Mas é necessário que se não deixe perder estes voluntariosos, tão poucos, num mundo cada vez mais carente de princípios onde principalmente se pensa em receber mesmo quando se fala tanto em dar.

Ludgero Paninho
Psicólogo Clínico / BOmbeiro Especialista

1 comentário:

Chalita disse...

Boa noite Ludgero. O meu nome é Joana e gostei muito do que disse neste post. Sou colega de profissão e gostava de saber mais sobre o trabalho do psicólogo num quartel de bombeiros. Se puder, mande-me o seu contato para joana_loura87@hotmail.com. Obrigado e continuação de bom trabalho